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quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

A ÍNDIA

Este texto faz parte da série 'O que me contaram sobre a vida', onde escrevo sobre experiências e lembranças que muitas pessoas me confiaram. Claro, não cito nomes, mas todos os textos desta série são baseados em pessoas reais
Sou adotada e minha mãe nunca me escondeu isso. Ela me contava histórias sobre ser mãe do coração, que não podia ter filhos e que outra mãe me gerou apenas para que ela pudesse realizar o desejo de criar uma menininha.
O fato de ela nunca ter tentado me esconder a verdade não a torna uma pessoa mais digna de elogios. Ela não teria como me esconder nada pois tenho traços indígenas  muito fortes e minha mãe e meu pai de criação são brancos feito leite.
Papai e mamãe se casaram muito novos, naquela época os pais dos noivos tinham que aprovar os casamentos e eles gostavam do meu pai. Minha mãe queria se casar com um tal apelidado Russo que era jogador de futebol, mas as más línguas diziam que jogadores eram mulherengos e que ela nunca seria feliz com ele. Dito e feito! Tempos depois soubemos que Russo nunca fez sucesso e teve três casamentos. Pra finalizar a tragédia, ele terminou a vida preso por tráfico de drogas, ou seja, mamãe fez a melhor escolha.
Meus pais tentaram ter filhos logo no começo do casamento, mas todas as tentativas foram afogadas num mar de lágrimas. Eles até conseguiram por duas vezes, mas a primeira gravidez terminou do segundo na oitava semana e na segunda o bebê nasceu morto porque passou do tempo. As duas situações destruíram minha mãe e ela teve uma depressão terrível: emagreceu muito, ficou fraca e doente e decidiu nunca mais tentar engravidar.
Algum tempo depois o casamento já não ia bem. Parece que chega um momento da relação onde o casal parece não mais se bastar e o peso dos filhos aparece de novo.  Era exatamente nesse momento da relação que eles estavam. O peso e assombração da prole caiam sobre os ombros, mas mamãe tinha medo de abortar ou de perder o bebê mais uma vez. Ela me conta que foi o pior momento do casamento porque ela se sentia inútil, incapaz de arcar com a obrigação feminina imposta pela sociedade de dar herdeiros ao marido. Ser boa esposa e boa mãe sempre foi o papel de todas as mulheres daquela geração e era um desgosto uma mulher não dar filhos ao marido!
Meses e meses em crise matrimonial e papai decide dar o braço a torcer e tentar melhorar a situação dos dois. Imagine: apenas os dois naquele casarão enorme vivendo em clima ruim!
Mamãe me contava muito sobre esse dia; o dia em que papai decidiu salvar o casamento! Ela dizia que quando ele chegou em casa ela estava regando as flores e que ele foi direto ao quarto; quando ele saiu estava vestido de palhaço e fazendo gracinhas. Ele sabia que mamãe adorava circo, e foi assim, vestido de palhaço que ele a convidou para ir ao circo naquela noite.
Quando o circo chegava toda a cidade virava uma bagunça só! Era uma das maiores atrações da época. E lá foram os dois, ao circo, animados, com brilho nos olhos e cheios de esperança!
Mamãe me contou que foi nesse dia que conheceu minha mãe biológica: uma trapezista adolescente, linda, pele cor de jambo, índia, cabelos bem lisos e negros. Ela se apresentava todas as quintas no circo e estava grávida de poucas semanas. Mamãe começou a frequentar o circo todas as semanas para ver a trapezista, sem saber quem era, sem nem trocar uma palavra; apenas por admirar a arte e a maneira delicada como fazia piruetas no ar.
Em uma apresentação a índia trapezista não conseguiu subir ao trapézio, parecia se sentir mal e mamãe mais que depressa correu à coxia para saber o que estava acontecendo. Foi quando descobriu que a índia, Axanti, estava grávida.
Mamãe estava surpresa e decepcionada. Como uma menina poderia estar grávida e ela não? Chorou a noite toda pedindo desculpas a meu pai por não conseguir ampliar a família deles.
Na manhã seguinte foi procurar Axanti sem saber bem o que esperar do encontro. Já no circo, perguntou a idade da menina. 14 anos! Durante a conversa a índia contou que não queria a criança e que só tinha transado uma vez, foi aí que minha mãe teve a mirabolante ideia de convidar Axanti para morar com eles, dessa forma, ela cuidaria da menina, participaria da gravidez e depois que o bebê nascesse Axanti poderia ir embora e ela então seria a mãe do pequeno bebê indígena.
E assim, passaram-se meses. Mamãe cuidou de Axanti até o momento do parto. Tudo previamente combinado e esclarecido.
No hospital, parto normal, recuperação rápida. Como haviam combinado, Axanti se vestiu e mamãe deitou-se na maca colocando a pulseira com o nome da mãe e do bebê no pulso durante a troca de turno das enfermeiras. Esse pequenos crimes eram comuns naquela época.
Mamãe saiu do hospital comigo nos braços como se fosse minha mãe biológica e me registrou, como filha legítima. Meu nome é Potira, que significa ‘flor’, nome de índia em homenagem a minha história.
Nós nunca mais soubemos nada sobre minha mãe biológica, apenas que levava a vida nos circos, viajando o Brasil.


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