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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

O DIVÓRCIO

Este texto faz parte da série 'O que me contaram sobre a vida', onde escrevo sobre experiências e lembranças que muitas pessoas me confiaram. Claro, não cito nomes, mas todos os textos desta série são baseados em pessoas reais

Eu tinha 13 anos.
Há algum tempo meus pais estavam discutindo, e já era de se esperar que eles se separassem.
Minha mãe pediu pra que ele fosse embora de casa, ele foi, mas não sossegou e continuou aterrorizando, - isso era o que ele fazia melhor -.
Meus irmãos caçulas estavam muito abalados, mas não choravam, e eu achava estranho eles reagirem com aquele silêncio todo.
Minha mãe me parecia bem, apesar de enfrentar um divórcio ser algo um tanto quanto desgastante, ela estava firme, queria isso há muito tempo.
Tenho a lembrança de quando ela nos chamou pra conversar, ela nos perguntou muitas vezes se tudo bem se nosso pai fosse embora de casa e nos mostrou o quanto estava infeliz casada.
Depois de toda a turbulência - por covardia e medo-ela voltou com ele. O colocou dentro de casa de novo e como se estivesse tudo bem, usando a máscara de uma família feliz nós encaramos o almoço de domingo da casa da vovó.
Naquela época eu tinha muito medo de falar. Quase não falava sobre o que sentia, eu guardava tudo dentro de mim.
Na nossa casa, uma casa grande e bonita, tinha um corredor enorme que ligava todos os quartos e um banheiro.  O meu quarto era o último e tinha uma janela grande que dava para um corredor no quintal. A última cena que me vem à mente sobre a volta dos meus pais é a de um abraço no meio deste corredor, quase em frente ao meu quarto. Por algum motivo estranho, eu abracei meus pais, chorando muito, em seguida fui tomar banho.
Eu morria de medo do meu pai. Ele nos batia, batia também na minha mãe.
De repente nesta etapa da minha vida fui me lembrando de muita coisa. Acho que isso é normal quando se está passando por um momento ruim. A vida vai mesmo passando feito um filme de forma acelerada que quase nos perdemos no tempo.  E no meu filme tinha muito terror.
Eu, sentada no quintal de casa, e meu pai me acertou em cheio o rosto. Minha boca sangrou. Eu tinha medo até de chorar, pois às vezes quando eu chorava muito ele me batia mais pelo choro. Então, eu tinha um choro sentido, quieto, quase apenas interno.
Eu, sentada no chão do meu quarto, brincando de Barbie e agora não lembro o motivo, mas quando percebi que meu pai estava chegando perto de mim, eu fiz xixi nas calças. Tinha tanto medo dele que fiz xix nas calças antes mesmo que ele entrasse no quarto.
Me lembro de estar dormindo no chão do quarto da minha mãe. Eu e meus irmãos costumávamos deitar sobre o edredom no chão do quarto para assistir a um filme. Deitávamos os três, lado a lado. Nesta noite, nós todos dormimos, inclusive meu pai e minha mãe. Durante a noite acordei com meu pai com a mão em mim. Eu era uma criança, estava assustada. Me lembro de ter continuado em silêncio – por algum motivo eu não fazia barulho,não chamava ninguém - , olhei pra ele, bem nos olhos. Seus olhos de monstro no escuro, ele estava com uma das mãos atrás da cabeça, segurando-a levantada, eu me virei de costas, ele tirou a mão de mim. Custei a dormir naquela noite, minha respiração estava acelerada, estava com medo de fechar os olhos. Nunca me esqueci disso, dos olhos dele. Até hoje não sei decifrar o que seus olhos diziam. Talvez ele não quisesse estar fazendo aquilo.

No final, ela se separou mesmo dele.