Este texto faz parte da série 'O que me contaram sobre a vida', onde escrevo sobre experiências e lembranças que muitas pessoas me confiaram. Claro, não cito nomes, mas todos os textos desta série são baseados em pessoas reais
Eu tinha 13 anos.
Há algum tempo meus pais
estavam discutindo, e já era de se esperar que eles se separassem.
Minha mãe pediu pra que ele
fosse embora de casa, ele foi, mas não sossegou e continuou aterrorizando, -
isso era o que ele fazia melhor -.
Meus irmãos caçulas estavam
muito abalados, mas não choravam, e eu achava estranho eles reagirem com aquele
silêncio todo.
Minha mãe me parecia bem,
apesar de enfrentar um divórcio ser algo um tanto quanto desgastante, ela
estava firme, queria isso há muito tempo.
Tenho a lembrança de quando
ela nos chamou pra conversar, ela nos perguntou muitas vezes se tudo bem se
nosso pai fosse embora de casa e nos mostrou o quanto estava infeliz casada.
Depois de toda a turbulência
- por covardia e medo-ela voltou com ele. O colocou dentro de casa de novo e
como se estivesse tudo bem, usando a máscara de uma família feliz nós encaramos
o almoço de domingo da casa da vovó.
Naquela época eu tinha muito
medo de falar. Quase não falava sobre o que sentia, eu guardava tudo dentro de
mim.
Na nossa casa, uma casa
grande e bonita, tinha um corredor enorme que ligava todos os quartos e um
banheiro. O meu quarto era o último e
tinha uma janela grande que dava para um corredor no quintal. A última cena que
me vem à mente sobre a volta dos meus pais é a de um abraço no meio deste
corredor, quase em frente ao meu quarto. Por algum motivo estranho, eu abracei
meus pais, chorando muito, em seguida fui tomar banho.
Eu morria de medo do meu
pai. Ele nos batia, batia também na minha mãe.
De repente nesta etapa da
minha vida fui me lembrando de muita coisa. Acho que isso é normal quando se
está passando por um momento ruim. A vida vai mesmo passando feito um filme de
forma acelerada que quase nos perdemos no tempo. E no meu filme tinha muito terror.
Eu, sentada no quintal de
casa, e meu pai me acertou em cheio o rosto. Minha boca sangrou. Eu tinha medo
até de chorar, pois às vezes quando eu chorava muito ele me batia mais pelo
choro. Então, eu tinha um choro sentido, quieto, quase apenas interno.
Eu, sentada no chão do meu
quarto, brincando de Barbie e agora não lembro o motivo, mas quando percebi que
meu pai estava chegando perto de mim, eu fiz xixi nas calças. Tinha tanto medo
dele que fiz xix nas calças antes mesmo que ele entrasse no quarto.
Me lembro de estar dormindo
no chão do quarto da minha mãe. Eu e meus irmãos costumávamos deitar sobre o
edredom no chão do quarto para assistir a um filme. Deitávamos os três, lado a
lado. Nesta noite, nós todos dormimos, inclusive meu pai e minha mãe. Durante a
noite acordei com meu pai com a mão em mim. Eu era uma criança, estava
assustada. Me lembro de ter continuado em silêncio – por algum motivo eu não
fazia barulho,não chamava ninguém - , olhei pra ele, bem nos olhos. Seus olhos
de monstro no escuro, ele estava com uma das mãos atrás da cabeça, segurando-a
levantada, eu me virei de costas, ele tirou a mão de mim. Custei a dormir
naquela noite, minha respiração estava acelerada, estava com medo de fechar os
olhos. Nunca me esqueci disso, dos olhos dele. Até hoje não sei decifrar o que
seus olhos diziam. Talvez ele não quisesse estar fazendo aquilo.
No final, ela se separou
mesmo dele.