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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

A MORTE

Este texto faz parte da série 'O que me contaram sobre a vida', onde escrevo sobre experiências e lembranças que muitas pessoas me confiaram. Claro, não cito nomes, mas todos os textos desta série são baseados em pessoas reais
Hoje descobri que vou morrer. Ainda não contei a ninguém.
Na verdade eu parei aqui pra sentar um pouco e digerir a notícia que a Dr.X acabou de me dar. Eu vou morrer! Não sei se vai demorar alguns meses. Pode levar alguns dias. Pode levar pouco.
Engraçado, no momento em que sai do hospital aquela música me veio à cabeça: “sei que vou morrer, não sei o dia. Levarei saudades da Maria! Sei que vou morrer, não sei a hora. Levarei saudades da Aurora. Quero morrer numa batucada de bamba, na cadência bonita do samba”.
Eu tenho 38 anos, sou casada e não tenho filhos. Neste exato momento eu penso que não deveria ter esperado para engravidar somente este ano – eu não vou engravidar e ainda vou morrer – não vou deixar nenhuma parte minha viva. Nem sei como dizer isso a meu marido, nem sei como dizer isso a alguém. “Gente, eu vou morrer, mas está tudo bem”!
Aquela coisa de escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho faz bastante sentido. Não só isso. A religião também faz um sentido maior, assim como o amor e minha vontade de ficar viva.
Eu nunca pensei morrer cedo. Queria viver 100 anos. Adiei meu casamento, adiei meus planos, o momento de ser mãe; tudo isso porque tinha certeza que viveria muito e agora essa bomba. A morte é mesmo bem silenciosa. Ela vem andando devagar como se pisasse em ovos. Uma pilantra, canalha...
Eu pensava que morreria em silêncio, dormindo, na mais pura tranquilidade. Saber que vamos morrer tem o lado positivo: eu posso dizer a algumas pessoas o quanto elas são especiais, fazer coisas com meu marido que ainda não fizemos, escrever memórias, olhar fotografia e lembrar dos momentos com mais frequência, andar na chuva e pensar no quanto é gostoso sentir os pingos, abraçar mais, beijar mais, valorizar... Confesso que deixei de olhar coisinhas pequenas durante a vida.
Pelo que notei até agora, o lado negativo é a angústia que acompanha a notícia da morte. O coração parece que começa a bater mais devagar e eu pareço ter mais cuidado, como se fosse quebrar a qualquer momento. Todo o cuidado que nunca tive. Sempre fumei, bebi, dormi pouco e baguncei demais. Comecei a malhar e melhorar a alimentação há uns 6 anos, mas o cigarro... nunca deixei o cigarro, e olha que meu marido me enchia o saco todos os dias pra parar de fumar!
Estou podre por dentro. O câncer me tomou toda e eu nem sabia que estava doente.  Dr.X disse que nem adianta me operar, não há nada a ser feito. O que me preocupava mais era ter que passar o resto dos meus dias no hospital, mas ela me tranquilizou e me orientou a procurar os médicos apenas quando eu já estiver bem ruim e fraca. Melhor assim. Quero ficar livre no fim da vida.
Estou começando a ter dúvidas se vou contar a alguém sobre isso. Eu tenho medo de as pessoas criarem uma imagem diferente a meu respeito ou de me tratarem com dó, olhos piedosos. Deus que me livre! Não quero ser a coitadinha!
E tem mais: não quero ver meu marido chorando! Ele vai sofrer e isso vai me matar antes da hora. Ele é um homem muito bom e sensível além da conta. Se eu te contar onde nos conhecemos... Eu estava em um cinema ao ar livre, sozinha e ao meu lado um homem se acabando de chorar. Ele estava me irritando. Primeiro porque eu não estava gostando do filme e segundo porque o barulho do seu choro era um saco, queria fazê-lo engolir as lágrimas. Ele chorou o filme inteiro e no final ele se desculpou pelo incômodo.  Eu respondi brincando: “nada que um café não pague” e assim foi. Estamos juntos desde então.
Nunca imaginei que fosse morrer antes dele. Deus, eu não pensava em morrer, nem antes, nem depois! Simplesmente não pensava na morte e quando pensava ela era feia e vestia uma capa preta de bruxa. Não era assim, calada e sem forma.
Não consigo parar de pensar em como contar pra minha família, se é que vou mesmo contar! Não posso escrever um bilhete e colar no espelho do banheiro como aquele “Eu te amo” de surpresa, muito menos escrever como num cartão de aniversário e nem por email com cópia pra todo mundo interessado em mim. Não se conta a morte como se conta a vida.
É no mínimo enlouquecedor pensar que posso não estar viva na semana que vem!
Me desculpe, eu não tenho mais o que dizer.

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