Este texto faz parte da série 'O que me contaram sobre a vida', onde escrevo sobre experiências e lembranças que muitas pessoas me confiaram. Claro, não cito nomes, mas todos os textos desta série são baseados em pessoas reais
Hoje descobri que vou
morrer. Ainda não contei a ninguém.
Na verdade eu parei aqui pra
sentar um pouco e digerir a notícia que a Dr.X acabou de me dar. Eu vou morrer!
Não sei se vai demorar alguns meses. Pode levar alguns dias. Pode levar pouco.
Engraçado, no momento em que
sai do hospital aquela música me veio à cabeça: “sei que vou morrer, não sei o
dia. Levarei saudades da Maria! Sei que vou morrer, não sei a hora. Levarei
saudades da Aurora. Quero morrer numa batucada de bamba, na cadência bonita do
samba”.
Eu tenho 38 anos, sou casada
e não tenho filhos. Neste exato momento eu penso que não deveria ter esperado
para engravidar somente este ano – eu não vou engravidar e ainda vou morrer – não
vou deixar nenhuma parte minha viva. Nem sei como dizer isso a meu marido, nem sei
como dizer isso a alguém. “Gente, eu vou morrer, mas está tudo bem”!
Aquela coisa de escrever um
livro, plantar uma árvore e ter um filho faz bastante sentido. Não só isso. A
religião também faz um sentido maior, assim como o amor e minha vontade de
ficar viva.
Eu nunca pensei morrer cedo.
Queria viver 100 anos. Adiei meu casamento, adiei meus planos, o momento de ser
mãe; tudo isso porque tinha certeza que viveria muito e agora essa bomba. A
morte é mesmo bem silenciosa. Ela vem andando devagar como se pisasse em ovos.
Uma pilantra, canalha...
Eu pensava que morreria em
silêncio, dormindo, na mais pura tranquilidade. Saber que vamos morrer tem o
lado positivo: eu posso dizer a algumas pessoas o quanto elas são especiais, fazer
coisas com meu marido que ainda não fizemos, escrever memórias, olhar
fotografia e lembrar dos momentos com mais frequência, andar na chuva e pensar
no quanto é gostoso sentir os pingos, abraçar mais, beijar mais, valorizar...
Confesso que deixei de olhar coisinhas pequenas durante a vida.
Pelo que notei até agora, o
lado negativo é a angústia que acompanha a notícia da morte. O coração parece
que começa a bater mais devagar e eu pareço ter mais cuidado, como se fosse
quebrar a qualquer momento. Todo o cuidado que nunca tive. Sempre fumei, bebi,
dormi pouco e baguncei demais. Comecei a malhar e melhorar a alimentação há uns
6 anos, mas o cigarro... nunca deixei o cigarro, e olha que meu marido me
enchia o saco todos os dias pra parar de fumar!
Estou podre por dentro. O
câncer me tomou toda e eu nem sabia que estava doente. Dr.X disse que nem adianta me operar, não há
nada a ser feito. O que me preocupava mais era ter que passar o resto dos meus
dias no hospital, mas ela me tranquilizou e me orientou a procurar os médicos
apenas quando eu já estiver bem ruim e fraca. Melhor assim. Quero ficar livre
no fim da vida.
Estou começando a ter dúvidas
se vou contar a alguém sobre isso. Eu tenho medo de as pessoas criarem uma
imagem diferente a meu respeito ou de me tratarem com dó, olhos piedosos. Deus
que me livre! Não quero ser a coitadinha!
E tem mais: não quero ver
meu marido chorando! Ele vai sofrer e isso vai me matar antes da hora. Ele é um
homem muito bom e sensível além da conta. Se eu te contar onde nos
conhecemos... Eu estava em um cinema ao ar livre, sozinha e ao meu lado um
homem se acabando de chorar. Ele estava me irritando. Primeiro porque eu não
estava gostando do filme e segundo porque o barulho do seu choro era um saco,
queria fazê-lo engolir as lágrimas. Ele chorou o filme inteiro e no final ele
se desculpou pelo incômodo. Eu respondi
brincando: “nada que um café não pague” e assim foi. Estamos juntos desde
então.
Nunca imaginei que fosse
morrer antes dele. Deus, eu não pensava em morrer, nem antes, nem depois!
Simplesmente não pensava na morte e quando pensava ela era feia e vestia uma
capa preta de bruxa. Não era assim, calada e sem forma.
Não consigo parar de pensar
em como contar pra minha família, se é que vou mesmo contar! Não posso escrever
um bilhete e colar no espelho do banheiro como aquele “Eu te amo” de surpresa,
muito menos escrever como num cartão de aniversário e nem por email com cópia
pra todo mundo interessado em mim. Não se conta a morte como se conta a vida.
É no mínimo enlouquecedor
pensar que posso não estar viva na semana que vem!
Me desculpe, eu não tenho
mais o que dizer.
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