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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

O RECOMEÇO

Este texto faz parte da série 'O que me contaram sobre a vida', onde escrevo sobre experiências e lembranças que muitas pessoas me confiaram. Claro, não cito nomes, mas todos os textos desta série são baseados em pessoas reais.
Fomos à Ilhabela passar alguns dias, eu, meus pais e meus irmãos. Era uma viagem de família, como fazíamos todos os anos. Seriam quatro dias para descansar, ficarmos juntos e nos divertir. E foi incrível!
Ficamos em um apartamento bem perto da praia, em um hotel – do qual não me lembro o nome-, mas que era bonito e aconchegante. Me lembro que havia um parquinho, e eu e minha irmã não saíamos de lá. Meu pai gostava muito de jogar bilhar, jogava todas as noites quando chegávamos da praia e mamãe só ficava nos observando. Aliás, observar é bem coisa de mãe, não é?
O meu pai era piloto de corrida. Eu achava isso um máximo e vivia falando aos amigos da escola sobre sua profissão, eu tinha um grande orgulho! Dizia que ele era amigo de gente famosa, mas isso era mentira, eu gostava de inventar sobre seu trabalho.
Mamãe era artista plástica, das melhores de São Paulo! Era tão legal o trabalho da minha mãe que eu ficava olhando-a pintar, mas eu fazia isso escondido, pois o cheiro da tinta era forte demais pra eu ficar sentindo, então eu era proibida de ficar no atelier.
Uma das coisas mais legais lá na nossa casa era uma parede da sala: a mais colorida entre todas paredes de todas as casas de minhas amigas! Minha mãe nos deixava - eu e minha irmã- pintar e rabiscar as paredes com tudo o que gente quisesse. Tinta, giz de cera, cola, brilho... era linda, e principalmente hoje, é uma lembrança maravilhosa do que nossa família já foi.
Sabe a nossa viagem à Ilhabela? Então, foi tudo demais até o momento de voltarmos.
Meu pai dirigia muito bem, sempre estávamos tranquilos com ele. Nossa trilha sonora de quase todas as viagens era Renato Russo- o cantor preferido do meu pai-, eu não gostava muito, mas já sabia até cantar de tanto que ele ouvia. Como todas as vezes, entramos no carro e começamos a nos organizar pra pegar a estrada rumo à São Paulo. Mamãe nos ajeitou nos bancos. Colocou os cintos. Papai ligou o rádio ao som de uma música que não lembro o nome.
Meu irmão encostou a cabeça no vidro e agarrou um travesseiro que ele nunca largava. Minha irmã estava sentada no meio e eu na outra janela.  Tudo pronto, seguimos em frente.
Já era fim de tarde quando saímos da cidade, e foi anoitecendo bem depressa. Não me lembro de mais nada depois disso, a minha última lembrança são as luzes da estrada brilhando forte, e eu peguei no sono. Quando acordei já estava no hospital.
Eu tinha 9 anos, estava com muito medo e perguntava pela minha mãe. Eu não tinha machucados e minha irmã tinha apenas um arranhão na testa. Quando a enfermeira viu que e estava acordada ela pediu que eu esperasse um minuto e então minha tia apareceu e me contou tudo o que havia acontecido naquela noite.
Um carro com um motorista embriagado colidiu com o nosso e papai não conseguiu desviar. Eu cai entre o banco traseiro e o banco do passageiro, estava dormindo e desmaiei com a queda. Meu irmão foi jogado pra fora do carro, pela janela que estava aberta. Minha irmã voou por entre os bancos dianteiros e bateu com a cabeça no painel do carro. Minha mãe foi enforcada pelo cinto de segurança e meu pai ficou preso nas ferragens. Mamãe morreu na hora, papai 2 dias depois e meu irmão, teve traumatismo craniano, se não tivesse morrido no dia seguinte ele teria sequelas graves. Só sobramos eu e minha irmã mais velha.
Quando minha tia me contou isso, eu não consegui dizer nada, eu apenas olhei minha irmã e a abracei com toda a força que cabia em mim naquele momento. Era a única coisa que tinha da nossa família, além das lembranças e daquela parede colorida tão linda da nossa casa.
As pessoas não podem entender o que é isso. Um dia você acorda e tem tudo no lugar e no dia seguinte tudo desorganizado. O tempo que uma mudança brusca leva para acontecer é apenas o de piscar os olhos. Hoje sou muito feliz, vivo alegre por que eu sei que a vida acaba rápido, por isso tento viver bem.
Acho desconfortável quando as pessoas reclamam de coisas tão pequenas: mudar de cidade, de emprego, terminar namoro... Mal sabem o preço do recomeço, de não ter tempo de raciocinar e os problemas já estarem ali, batendo à porta. Somos menores que as formigas diante do tamanho e do poder do além, seja lá onde ele seja, ou quem seja. Há coisas que não se explicam, são vividas, sentidas, e armazenadas dentro de cada um de nós. Assim é a vida que enchemos de vírgulas, exclamações e interrogações dia após dia, o ponto final vem no momento em que o vento sopra mais forte. Às vezes parece até que sabemos, sentimos o cabelo voar, mas não queremos acreditar.
Ficamos com nossa tia, ela nos adotou. Perdemos nossos pais e nosso irmão. Ganhamos uma família nova e irmão novos, mas não deixamos de ter um pedaço dos nossos pais entre nós, afinal de contas, nós somos um pedaço deles.
O vento soprou forte demais aquela noite. Hoje, o sol está brilhando tanto!


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