Este texto faz parte da série 'O que me contaram sobre a vida', onde escrevo sobre experiências e lembranças que muitas pessoas me confiaram. Claro, não cito nomes, mas todos os textos desta série são baseados em pessoas reais.
Fomos à Ilhabela passar
alguns dias, eu, meus pais e meus irmãos. Era uma viagem de família, como
fazíamos todos os anos. Seriam quatro dias para descansar, ficarmos juntos e
nos divertir. E foi incrível!
Ficamos em um apartamento
bem perto da praia, em um hotel – do qual não me lembro o nome-, mas que era
bonito e aconchegante. Me lembro que havia um parquinho, e eu e minha irmã não
saíamos de lá. Meu pai gostava muito de jogar bilhar, jogava todas as noites
quando chegávamos da praia e mamãe só ficava nos observando. Aliás, observar é
bem coisa de mãe, não é?
O meu pai era piloto de
corrida. Eu achava isso um máximo e vivia falando aos amigos da escola sobre sua
profissão, eu tinha um grande orgulho! Dizia que ele era amigo de gente famosa,
mas isso era mentira, eu gostava de inventar sobre seu trabalho.
Mamãe era artista plástica,
das melhores de São Paulo! Era tão legal o trabalho da minha mãe que eu ficava
olhando-a pintar, mas eu fazia isso escondido, pois o cheiro da tinta era forte
demais pra eu ficar sentindo, então eu era proibida de ficar no atelier.
Uma das coisas mais legais
lá na nossa casa era uma parede da sala: a mais colorida entre todas paredes de
todas as casas de minhas amigas! Minha mãe nos deixava - eu e minha irmã- pintar
e rabiscar as paredes com tudo o que gente quisesse. Tinta, giz de cera, cola,
brilho... era linda, e principalmente hoje, é uma lembrança maravilhosa do que
nossa família já foi.
Sabe a nossa viagem à
Ilhabela? Então, foi tudo demais até o momento de voltarmos.
Meu pai dirigia muito bem,
sempre estávamos tranquilos com ele. Nossa trilha sonora de quase todas as
viagens era Renato Russo- o cantor preferido do meu pai-, eu não gostava muito,
mas já sabia até cantar de tanto que ele ouvia. Como todas as vezes, entramos
no carro e começamos a nos organizar pra pegar a estrada rumo à São Paulo.
Mamãe nos ajeitou nos bancos. Colocou os cintos. Papai ligou o rádio ao som de
uma música que não lembro o nome.
Meu irmão encostou a cabeça
no vidro e agarrou um travesseiro que ele nunca largava. Minha irmã estava
sentada no meio e eu na outra janela.
Tudo pronto, seguimos em frente.
Já era fim de tarde quando
saímos da cidade, e foi anoitecendo bem depressa. Não me lembro de mais nada
depois disso, a minha última lembrança são as luzes da estrada brilhando forte,
e eu peguei no sono. Quando acordei já estava no hospital.
Eu tinha 9 anos, estava com
muito medo e perguntava pela minha mãe. Eu não tinha machucados e minha irmã
tinha apenas um arranhão na testa. Quando a enfermeira viu que e estava
acordada ela pediu que eu esperasse um minuto e então minha tia apareceu e me
contou tudo o que havia acontecido naquela noite.
Um carro com um motorista
embriagado colidiu com o nosso e papai não conseguiu desviar. Eu cai entre o
banco traseiro e o banco do passageiro, estava dormindo e desmaiei com a queda.
Meu irmão foi jogado pra fora do carro, pela janela que estava aberta. Minha
irmã voou por entre os bancos dianteiros e bateu com a cabeça no painel do
carro. Minha mãe foi enforcada pelo cinto de segurança e meu pai ficou preso
nas ferragens. Mamãe morreu na hora, papai 2 dias depois e meu irmão, teve
traumatismo craniano, se não tivesse morrido no dia seguinte ele teria sequelas
graves. Só sobramos eu e minha irmã mais velha.
Quando minha tia me contou
isso, eu não consegui dizer nada, eu apenas olhei minha irmã e a abracei com
toda a força que cabia em mim naquele momento. Era a única coisa que tinha da
nossa família, além das lembranças e daquela parede colorida tão linda da nossa
casa.
As pessoas não podem
entender o que é isso. Um dia você acorda e tem tudo no lugar e no dia seguinte
tudo desorganizado. O tempo que uma mudança brusca leva para acontecer é apenas
o de piscar os olhos. Hoje sou muito feliz, vivo alegre por que eu sei que a
vida acaba rápido, por isso tento viver bem.
Acho desconfortável quando
as pessoas reclamam de coisas tão pequenas: mudar de cidade, de emprego,
terminar namoro... Mal sabem o preço do recomeço, de não ter tempo de
raciocinar e os problemas já estarem ali, batendo à porta. Somos menores que as
formigas diante do tamanho e do poder do além, seja lá onde ele seja, ou quem
seja. Há coisas que não se explicam, são vividas, sentidas, e armazenadas
dentro de cada um de nós. Assim é a vida que enchemos de vírgulas, exclamações
e interrogações dia após dia, o ponto final vem no momento em que o vento sopra
mais forte. Às vezes parece até que sabemos, sentimos o cabelo voar, mas não
queremos acreditar.
Ficamos com nossa tia, ela
nos adotou. Perdemos nossos pais e nosso irmão. Ganhamos uma família nova e
irmão novos, mas não deixamos de ter um pedaço dos nossos pais entre nós,
afinal de contas, nós somos um pedaço deles.
O vento soprou forte demais
aquela noite. Hoje, o sol está brilhando tanto!
Hey
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